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PARA PENSAR


Quando edificares uma casa nova, farás um parapeito, no eirado, para que não ponhas culpa de sangue na tua casa, se alguém de algum modo cair dela.

Deuteronômio: Capítulo 22, versículo 8


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CIPEIRO: ADVERSÁRIO OU PARCEIRO NA PREVENÇÃO ?
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Neste momento em que vemos chegar a Presidência da República um operário muito mais do que mantermos os olhos presos a análise da questão política pura e simplesmente devemos aproveitar a oportunidade para reveremos a questão das relações no ambiente de trabalho. Na minha forma de ver um grande equivoco ainda reinante em nosso país diz respeito a forma com que é visto o trabalhador, em especial no que diz respeito a sua postura e responsabilidade no tocante a prevenção de acidentes. Em muitas empresas onde a cultura e as relações são mantidas a partir de óticas bastante arcaicas – a alta direção e seus prepostos parecem que ainda enxergam o operário como uma figura a ser tutelada em muitos aspectos e ao mesmo tempo – rigorosamente cobrada e exigida em outros. Interessante notar que por exemplo que daquilo que diz respeito a qualidade e produtividade – por exemplo – espera-se do trabalhador uma postura ativa e um certo grau de decisão, no entanto, já no que se refere a sal segurança e saúde a expectativa é bastante diferente. Sinceramente não sei como avaliar o quanto esta “dualidade” tem alguma forma de validade, mas a experiência prática mostra que não agrega qualquer tipo de valor.

Nesta mesma linha de raciocínio seguem as relações entre as empresas e as representações dos empregados. Muitas vezes dissimulada em discursos de parceria estão ocultas relações totalmente inconsistentes e via de regra desprovidas de qualquer planejamento mais objetivo que tenha alguma tendência evolutiva. Sutilmente nada mais ocorre do que um grande conflito – que nem mesmo pode ser chamado de interesses – visto que a cada dia que passa fica mais comprovado o quanto os acidentes e doenças ocupacionais são danosos aos objetivos do negocio em si. Certamente, muitos dos dirigentes de empresas ainda não atentaram para tal situação, visto que o assunto via de regra é tratado por especialistas que se encontram graus abaixo da alta direção: é importante que este assunto mereça e receba uma análise bastante detalhada e que assim com certeza seja tirado do meio das velhas tratativas feitas por profissionais que esqueceram de evoluir e enxergam as representações dos empregados como nichos de oposição aos interesses do negócio. É preciso que as empresas passem a ter interlocutores, verdadeiros homens de Recursos Humanos no lugar de velhos domadores de departamentos de pessoal.

O QUE MUITA GENTE AINDA NÃO SE DEU CONTA

Mesmo que o mundo mude a cada segundo para algumas pessoas as mudanças e necessidades demoram um pouco mais a chegar. Interessante dizer que isso não ocorre apenas por falta de informação ou falta de condições de interpretar uma informação ou tendência. Há muita gente no mercado com formação bastante interessante, mas que infelizmente entende muito de toda teoria mas jamais conseguiu ter humildade bastante para aprender algo sobre prática. Por toda parte e por onde andamos temos notado que há pouca diferença entre o velho profissional desatualizado e algumas brilhantes mentes sem conhecimento prático das relações capital x trabalho – na minha forma de ver – ambos tem quase o mesmo valor e utilidade.

É importante saber que as informações sobre globalização e concorrência mais do que servirem para gerar noticias aterrorizadoras em quadros de avisos de empresas deveriam também levar ao questionamento real sobre redução de custos e por conseqüência aumento de competitividade. Todos os dias em todas as partes Diretores de companhias tem chamado seus diretos para que em conjunto possam discutir formas e ações para reduzir custos, obviamente muito destas exigências acabam recaindo sobre as chamadas áreas improdutivas ou indiretas – onde geralmente estão locados os SESMT.  Poucas noticias se tem de propostas de redução de riscos e acidentes como forma de otimizar o negocio – ficando o assunto restrito a redução de papeis, cópias, cortes na aquisição de equipamentos, etc. Não sei se isso ocorre por falta de coragem ou conhecimento quanto as grandes possibilidades de uma prevenção bem desenhada e trabalhada para contribuir na redução dos custos – como também não sei – quantas folhas de sulfite são necessárias economizar para fazer frente a um único acidente do trabalho.

Ao mesmo tempo parece-me estranho demais que ninguém ou quase ninguém tenha de fato ainda atentado para as razões reais que levam as matrizes de suas empresas – estabelecidas em paises do primeiro mundo – a dedicarem séria atenção a questão prevencionista. Certamente não seremos inocentes o bastante para estarmos apegados apenas as questões sócio-humanitárias.

Crucial mesmo no entanto talvez seja a visão paternalista-tutelar surgida da necessidade de tentar ocultar problemas e desvios no cumprimento da lei – traduzindo – a postura que a maioria das empresas adotou de tratar o assunto e segurança dos seus empregados sem dar a estes voz ativa no processo. Com certeza muito desta postura veio da necessidade de manter os trabalhadores distantes do conhecimento da lei -  o que hoje – em pleno século XII com um Sindicato em cada esquina e o direito trabalhista amplamente divulgado não mais se justifica. É preciso que se entenda que o direito de saber/dever de informar muito mais do que trazer problemas – como pensam ainda alguns – leva quando bem conduzido a transferência de parte da responsabilidade ao trabalhador. Não bastasse isso, a mesma postura contribui para o desenvolvimento de consciência coletiva sobre o assunto – o que sem duvida alguma talvez seja um dos grandes pilares para a melhoria da prevenção dentro das grandes empresas. Podem alguns pensar que tais melhorias são meras conquistas sindicais – o que acha também um equivoco apesar de reconhecer que a postura sindical foi um catalisador para tanto. No entanto, o que diminui os riscos e melhora o ambiente  é a consciencia coletiva – pois são os trabalhadores que estão ao pé das máquinas.

Por fim, com certeza deve ficar claro de que não há evolução real nas empresas que tentam desenvolver sua mão de obra fragmentando o ser humano em partes.

O PAPEL DA CIPA

Pobre do administrador que não sabe lidar e otimizar suas lideranças. Transforma aliados em inimigos.

Penso que poucos profissionais até hoje tiveram a paciência ou esperteza de analisar o papel e potencial das CIPA dentro das empresas. Talvez se tivessem descido dos altares dos antigos paradigmas.....Interessante que muitos destes profissionais dedicam parte de suas vidas a tentativa de estabelecer elos de comunicação e relação com o chão de fábrica – mas erram de novo – quando o tentam desprezando as lideranças naturais. A figura do cipeiro é bastante interessante, primeiro por ser fruto de uma processo eleitoral que de alguma forma gera compromisso dos empregados com seu eleito. Segundo, porque via de regra na CIPA encontramos pessoas com algum grau de compromisso com questões bastante valiosas aos operários. Muitos dizem que a CIPA nas grandes empresas nada mais é do que um trampolim para a vida sindical – e em parte tem razão, mas parecem – por outra parte – querer desconhecer que a grande maioria dos cipeiros jamais deixam o universo da prevenção.

Interessante ouvir em mesas de reunião que fazer prevenção geralmente custa muito caro – e saber que ao mesmo tempo naquela empresa onde estamos ouvindo este mesmo comentário existem algumas pessoas eleitas e cujos salários são pagos pela mesma empresa que houvesse por parte da direção uma definição clara e moderna poderiam fazer prevenção. Estranho ouvir de algumas pessoas a afirmação de que 90 % dos acidentes ocorrem pelos famigerados atos inseguros e que estas mesmas pessoas não tenham consciência que um grande remédio para tal diagnostico seria a atuação do trabalhador conscientizando o trabalhador. Será que elas acreditam no que dizem ou ao menos sabem algo de fato sobre o  assunto ?

Piores no entanto do que os administradores de pessoal sem visão sobre o sobre o assunto – são nossos colegas de SESMT que enxergam na CIPA uma oposição, um estorvo ou algo assim. Interessante que muitos destes colegas saem repetindo pelo mundo afora que o problema de segurança e saúde é dos trabalhadores e que estes deveriam ser responsáveis – mas ao mesmo tempo insistem em desconhecer a legitimidade destes como atores no debate sobre o assunto. De fato o problema de segurança e saúde no trabalho é do trabalhador – o papel do SESMT é ser consultor. No entanto as relações não amadurecem quando o SESMT tenta fazer da CIPA um “setor auxiliar” e vê no Cipeiro – um estafeta.

Minha experiência profissional permite-me dizer com certeza que quando a empresa tem uma política clara e decente em relação a CIPA esta corresponde de forma bastante interessante e os conflitos – que obviamente não deixam de existir – passam a integrar um grande processo evolutivo – seja de entendimento sobre os problemas, seja de soluções práticas quase sempre contando com o apoio e mesmo idéias oriundos do chão de fábrica. Quando deixamos de discursar ou jogar em quadros de propaganda a noção de que a empresa pertence ao empregado, que o mais importante deste local é a sua gente – é transformamos isso em prática de administração com certeza colhemos resultados bastante interessantes. E interessantemente não estamos fazendo mais do que legitimar uma situação. Talvez doa a alguns ter que deixar de lado a arte de ludibriar para ter de fato que negociar – mas é importante que entendam que quando falamos de segurança e saúde mais cedo – na prevenção – ou mais tarde – na correção – teremos que fazer isso. Poucos notam que a cada dia o que não se paga para prevenir tem sido gasto para corrigir – e as vezes sem que seja possível a correção plena.

Achar que o trabalhador ou suas representações não tem condições de administrar seus interesses talvez seja uma das maiores tolices que se possa ter com conceito. Bem provável que isso ocorra dentro de administrações distorcidas – mas se a administração é ruim com certeza segurança e saúde não é o único problema na relação. A bem da sobrevivência do profissional e mesmo em outra escala – do próprio negocio – é bom entender que a dissociação cidadão-trabalhador que durante muitos anos reinou a cada dia que passa tem sua distancia diminuída. Vale entender que muitas das exigências que o mercado criou – algumas delas de fato sem qualquer justificativa prática como por exemplo um grau maior de escolaridade para operar máquinas sem qualquer complexidade, trouxeram juntas mais conhecimento, mais discernimento e politização. Não olhar este quadro holisticamente e andar na contramão das relações.

Administrar a relação com a CIPA jamais foi tolher ou tomar conta da CIPA – este modelo doentio só leva a problemas. Dentro do tempo de tantos comitês e similares talvez seja interessante repensar o que pode ser proveitoso em relação ao comitê da segurança e saúde – talvez assim deixando de ver a CIPA como apenas algo obrigatório por lei e assumindo-a como parte do negócio encontre-se o caminho das pedras.

Propiciar a CIPA o pior dos treinamentos é deixar um barco solto numa noite escura de tempestade. Penso que talvez seja melhor ter um barco com rumo, com conhecimento e direção, pois é claro que a maior parte dos conflitos atuais e problemas surgem da falta de informação.

Ignorar a CIPA é fazer com que esta ganhe força diante do trabalhadores – e nem sempre o tipo de força que tenha alguma ganho em termos de prevenção. A grande maioria dos cipeiros são lideres natos e assim tudo farão para ocupar e chegar ao lugar de respeito que lhes é negado.

Por fim, conclue-se que há necessidade de uma avaliação bastante imparcial quanto a forma atual de que nos relacionamos com a CIPA. Após esta avaliação buscar um planejamento realista e adequado e daí em diante colher o bons frutos da famosa parceria – real – pois só está conduz a alguma tipo de resultado duradouro.

Cosmo Palasio de Moraes Jr.

Divulgação e reprodução autorizadas desde que mencionados o autor e a fonte.


Cosmo Palasio de Moraes Jr.

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